Capítulo I
I
Fronteiras na viagem
Quando em Julho, no desejo de gastar o meu ócio forçado em Paris, me dispus a viajar de comboio, recordava-me perfeitamente de ter metido na minha mala de viagem, uma apreciável quantidade de garrafas de vinho do Porto.
Os amigos com quem tencionava contactar gostavam dessa bebida e de acordo com as minhas limitações físicas e económicas não deixei de seguir o conselho do meu amigo Naves. Foram gastas em bela camaradagem, as primeiras naquele apartamento do Jacques Gary, no Sacré Coeur, onde o Bohmer conseguiu trazer as três encantadoras romenas, novas, alegres e sensuais. As restantes gastaram-se no apartamento do Sr. Cavalcanti, homem mundialmente conhecido no cinema, graças, por certo, aos cento e tantos filmes já realizados. Tinha, segundo o amigo Naves, (incluindo os vinte e cinco por cento que costumo deduzir às suas afirmações) um apartamento em Capri, outro em Palma de Maiorca e sendo brasileiro de origem e ainda por cima comunista, tinha casa também no recife. Fizera já parte do júri ( e aqui não há percentagem a descontar ) na atribuição de prémios nos festivais de Cannes, S.Sebastian, Rio de Janeiro e Leipzig. Em Paris, no Pigalle, onde habitava, estava sempre rodeado daquelas “fans” que de quando em quando lhe mendigavam a influência para uma actuação no Palais Royal ou das estudantes da Aliance ( grupo de “garotas” de várias nacionalidades )que encontravam no grande realizador a virtude poliglota de as compreender com mais clareza, do que somente pela mímica, sempre usada, pelas iniciadas.
Todas essas mulheres tinham já duas ou três palavras de uso vulgar em francês encasquetadas na memória, que nós fazíamos render em significado, entremeando-as de sorrisos ou atitudes de sincera camaradagem, às vezes licenciosamente filiadas na eficaz desinibição do velho Porto. A utilidade destas garrafas fora por demais compensadora. No momento de as gastar detinha-me, em vão, a recordar as dificuldades do transporte e sobretudo os entraves alfandegários que os circunstantes me pediam para descrever. Tudo se me tinha varrido da memória de uma maneira estranha! Por mais que tentasse reconstituir a imagem da minha passagem na fronteira pirenaica, nem a mais ténue recordação me ocorria. Tal amnésia era como que um buraco inexplicável, na minha vida. Valiam-me às vezes, nas tentativas inúteis de reconstituição, as carícias elanguescentes da amiga Sandra, uma das mais belas mulheres do grupo Cavalcanti, ou a canção mil vezes repetida da Mimi, que não sabendo mostrar preferência entre os amigos, a todos por igual suscitava simpatia. Tudo, tudo eu podia recordar com precisão desde a entrada na estação de Austerlitz até à presente data, mas a entrada na região dos bascos, haveria de ser sempre um enigma para mim.
Agora sim, via-os em carne e osso ao longo do balcão. Eram os policias da fronteira, cheios de autoridade, desprovida de sentimentos, automaticamente policial. Repetindo pela milionésima vez as mesmas palavras, num movimento automatizado dos lábios, a maquina funcionou:
- Faz favor de abrir a mala…
Eu não trazia mais do que roupas e algumas lembranças de escasso valor: um colar de fantasia ( que não era portanto o de Maria Antonieta ); duas estatuetas que representavam a Afrodite quase nua e a de Vénus de Milo, compradas nos subúrbios do Louvre. Alem destes objectos sobressaia, em dimensões, uma boneca que tinha a particularidade de fazer uns números de ginástica por meio de corda. Era uma novidade que
- E para uma afilhada que tenho…
Os olhos metidos nas orbitas fundas e um resto de testa que a cabeleira não conseguira invadir, alem das narinas dilatadas, emprestavam a fisionomia do nosso fiscal alfandegário o ar mais apropriado, para se julgar daquele primata, se não o ultimo representante dos gorilas, pelo menos um remoto hominídea, na teoria da evolução das espécies.
- E uma peca muito grande e cara – disse, num trejeito de lábios sobressaídos. E acrescentou: - Vou ver se o chefe a deixa passar, mas duvido muito…
- Espero que o chefe seja amigo de crianças! – Objectei, quando ele, já de costas voltadas, se dirigiu para o gabinete.
Entretanto, os emigrantes, atendidos por outros policias talvez mais compreensivos, iam passando as dezenas a minha frente. Não me agradava nada estar a espera, ainda mais por uma razão que me parecia injusta. Por isso, com incontida revolta, num surdo protesto, aflorava-me a celebre frase de Cícero: “Ate quando, oh Catalina, abusaras da nossa paciência?” frase que, em desacordo com a liberdade de expressão, consignada nalgumas constituições, não chegou a fazer vibrar os corpos elásticos, nem consequentemente a desencadear possíveis represálias prepotentes.
Momentos depois, o fiscal já sem a boneca, aproximava-se em dengosos requebros do tronco, numa calma intencionalmente irritante, limitando-se como resposta a uma careta de submissão a vontade do chefe, tal como Pilatos a lavar as mãos.
Seguidamente a inspecção continuou – E isto que vem a ser? – Perguntou, sopesando a Afrodite.
- E a Senhora de Fátima – repliquei malicioso.
Um clarão de humanização sacudiu a fronte do “alienado” homem, - A Senhora de Fátima! – monologou comovido, ao mesmo tempo que se benzia e beijava a imagem. – E a imagem da minha devoção! – acrescentou.
Depois, como que para me agradecer de pertencer a uma seita religiosa do seu gosto, pediu delicadamente: - Tenha a bondade de fechar – e acrescentou arrependido, num gesto triste: - Que pena ter levado a boneca ao chefe!... Evitava de ter ficado apreendida… Agora já nada posso fazer…
Não lhe agradeci nem lhe chamei estúpido. Nada adiantava. Mas a mim, recriminei-me, pela rígida submissão a verdade.
De facto, se salvei a Afrodite daquele modo, e a Vénus de Milo depois, chamando-lhe Senhora das Dores, porque não haveria de ter chamado a boneca a Senhora dos Milagres?!
A minha afilhada nunca chegaria a saber que, por culpa minha, estivera a beira de lesar uma grande nação, por causa de uma boneca; que esta boneca, por certo, lhe daria as melhores vivencias da infância, se eu tivesse querido pagar os direitos alfandegários. Mas eu e que jamais me perdoaria de ter esquecido essa noite secular de alienação que os reis católicos através da inquisição, impuseram a Península Ibérica e graças a qual pude salvar as restantes estatuetas!
Metido finalmente na fila desordenada dos emigrantes, carregados de bagagens, era impossível desconhecer, através das conversas, não só que se tratava de portugueses e espanhóis, num retorno de ferias a terra natal, mas também que baseados no magro pecúlio das suas economias, respiravam aspirações ilusórias e egoistamente personalistas, para um opulento e descansado entardecer.