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Alma Portuguesa

Alma Portuguesa 

 

 

 A poesia de Helena Sofia Soares se expressa lírica e sofridamente, com muita maturidade de pensamentos e palavras; seus poemas denunciam – sem gritar – a sua vocação de cineasta: seus versos prenunciam fotogramas; suas idéias gesticulam e convidam marcações de cena, detalhes e planos; os cenários para a verbalização de seus sentimentos estão dispostos em formatos quase concretistas e bem harmônicos, apesar dos conflitos e das contradições que emergem  por não poderem mais ficar latentes; os sons de sua poesia assumem relações de mixagem, como em um roteiro que constrói, sem pressa, uma trilha sonora. Seus versos contracenam, actuam, fazem contracampo; sua poesia é mesmo visual, cinematográfica: apresenta-se como narrativa de momentos e tesouros da memória que ela transpõe para a tela de seu manuscripto (uma tela tão reveladora quanto a celulóide), utilizando fusões e superposições, focando e desfocando  intencionalmente recantos  de sua mente e de seu coração.

    No travelling de seu coração, a sua sensibilidade poética criou poemas e símbolos, para expressá-los em takes a seus companheiros de existência, na forma não só de detalhes, como em movimentos de câmera; nas asas de seus versos, Helena Sofia Soares dirigiu zooms de aproximação e distanciamento; e deu aos leitores a oportunidade de realizarem, em seus próprios corações, panorâmicas verticais e horizontais.

                  Theresa Catharina, jornalista

 

Este livro vem mostrar que, a par de uma modernidade cujas raízes e escolas são geralmente conhecidas e identificadas, há modalidades da escrita poética que continuam a alimentar-se de uma tradição literária consistente, procurando, ao mesmo tempo, prolongá-la e renová-la.

 

Os esquemas formais de que Helena Sofia Soares lança mão, as suas rimas, a sua prosódia, os seus metros, a sua temática, o seu tipo de inquietação e de vivência do amor, a sua dialéctica íntima com a paisagem e a variabilidade das atmosferas, revivem aqui, com agilidade e notas muito pessoais, alguns ecos de Régio, de Florbela, talvez também de Carlos Queirós e de Pedro Homem de Melo, de mistura com saborosas revisitações da tradição da poesia popular, tudo sem dramas excessivos ou tensões explosivas, mas com espontaneidade, algum erotismo discreto, bastante destreza e uma certa melancolia.

 

É pois uma poesia que não pretende estar ligada às vanguardas nem derivar delas, e que tão pouco enfileira pelas vias da modernidade literária mais ou menos “institucionalizada” como moeda corrente, mas se assume assim mesmo, como expressão e dicção muito pessoais e inteligentemente equilibradas daquilo que a autora tem a dizer, sem perder de vista uma expressão musical e cantabile que tem origens imemoriais e cultiva paradigmas de um lirismo intimista ainda nosso contemporâneo.

 

 

Vasco Graça Moura

 

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